Foto: Presbiterio de Madrid y Extremadura - IEE

Esses evangélicos

Por Manoel Lucas Filho

Alguns dias atrás conversava com um amigo que estava se aposentando do serviço público e o mesmo me indagou sobre como obter o visto de permanência na Espanha. Ao perguntar-lhe sobre o objetivo, fator mais importante na solicitação, disse-me que desejava fazer pregações para sua igreja, a Assembleia de Deus. Achei isso estranho porque no Brasil o evangelismo está bombando, basta ir a qualquer bairro pobre que tem gente aos montes ávidos por uma palavra acolhedora. Ocorre, e assim eu compreendo, que não é por aí que andam os tiros dos pentecostais pois é sabido que os neo pentecostais, à moda cachorro “vira-lata”, tomaram conta das ruas e dos miseráveis, se o sujeito aparece nesses locais com cara de boa pinta e bom samaritano será escorraçado feito cachorro de madame… pelos “vira-latas”. Então a península ibérica, berço da nação ibero-americana, povoada por gente bem-educada, bem que poderia ser um bom lugar para meu amigo amealhar algumas almas, pensei…

Hoje, passando a vista no El País, principal jornal espanhol, percebi que a vida de meu amigo não vai ser fácil por aqui. Uma reportagem “Os evangélicos conquistam o polígono: 17 igrejas em duas ruas”, me fez lembrar das propostas da Assembleia de Deus e fui ver de que se tratava. A notícia se referia ao bairro Buenavista, no distrito de Carabanchel, antiga zona industrial de Madri, onde os trabalhadores de baixa renda se distribuem por sete bairros, nada diferente do que se passa no Brasil. Ali, num polígono formado por duas ruas, numa extensão que não vai além dos 300 metros, 17 igrejas neo pentecostais se alojam em antigos galpões industriais. Ao todo, são 76 igrejas do mesmo ramo, só nesse distrito que conta com 250.000 habitantes.

A matéria começa com as reclamações do porta-voz da federação das entidades evangélicas, Jorge Fernández, alegando com razão que são obrigados a ir à periferia porque o Superior Tribunal de Justiça negou para os evangélicos o mesmo que concede para a igreja católica, ou seja 0,7% do imposto de renda que as pessoas físicas podem destinar para esta instituição, uma tremenda sacanagem. E com isto eles não podem pagar um aluguel em lugares mais centrais. Vale lembrar que desde os tempos do ditador Franco a Igreja e o Estado são praticamente a mesma coisa neste país, nem o modernismo espanhol dos últimos quarenta anos mudou isso. Porém, o governo da autonomia de Madri, comandado por uma direita tão atrasada nos costumes como o estado espanhol, tem aprovado anualmente uma subvenção para essas igrejas de olho nos votos dos fiéis. Sabendo que os neo pentecostais são tão barulhentos quanto os vira-latas, Fernandez ainda alega que a vantagem da periferia é que o ruído é mais aceitável enquanto nos bairros centrais isso não seria permitido, o que os condena a ficar por ali, mesmo sabendo que o conservadorismo católico jamais permitiria que uma igreja “exótica” (na visão dos espanhóis) se localizasse num bairro mais nobre, outra sacanagem da elite católica espanhola, encalacrada nos tribunais.

Mas há uma coisa interessante nessa novidade estrambótica, boa parte dos templos são coloridos e animados por uma iluminação estroboscópica, mais parecendo um inferninho, onde não faltam adornos como balões desses que se usa em aniversário de criança, instrumentos de percussão incluindo até pandeiros. Também não era pra menos, numa dessas igrejas um dos pastores é Marcus Vidal que ganhou um Grammy latino em 2016, por seu disco de cunho cristão. Tudo é muito divertido, parecendo os bailes funk, da periferia do Rio de Janeiro, mas paradoxalmente sombrio. Não faltam as “papangusadas” que vemos nas igrejas neo pentecostais do Brasil quase todos os dias como um pastor, que aos gritos de Jesus, Jesus… põe a mão sobre a cabeça de uma fiel que cai esperneando como se estivesse num terreiro de candomblé, tudo combinado, claro.

Como diz o teólogo Juan José Tamayo, na América Latina, Estados Unidos e Europa estamos todos assistindo a um avanço das organizações e partidos políticos de extrema direita, que formam uma trama perfeitamente estruturada e coordenada em nível global e estão em conexão orgânica com grupos fundamentalistas religiosos, preferentemente evangélicos, até conformar o que a jornalista Nazaret Castro chama “la internacional neofascista” e Tamayo chama de “internacional Cristo-neofascista”. Alguns pastores do Polígono do Aguacate, como é conhecida a zona, não deixam de enaltecer que no Brasil a presidente Dilma foi derrubada por conta do apoio dos evangélicos e Bolsonaro foi eleito e se mantem no cargo graças a eles. Citam também o caso de El Salvador e o recente caso da Bolívia em que a presidente interina manuseia uma bíblia comprada em Itú.

Tudo segue tão igual ao que já conhecemos no país de São Saruê que nesta mesma semana o mesmo porta-voz da federação das entidades evangélicas, Jorge Fernández, teve que explicar-se sobre o pastor hondurenho Carlos Abigail, de 49 anos, que abusava de uma adolescente de 17 anos nas dependências da própria igreja.
Vida difícil vai ter meu amigo por estas bandas. Lá, como cá, quando o cachorro da madame sai à rua bem cheiroso tem de aguentar os latidos e fedores da frasqueira vira-lata. Abre o olho amigo!!!

 

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